João Palhinha, de 31 anos de idade, está prestes a assinar pelo Benfica, naquele que era um já aguardado regresso a Portugal, depois dos anos em que passou em Inglaterra e na Alemanha, após um longo percurso ao serviço do Sporting.
Para o médio, durante algum tempo, os encarnados foram sinónimo de uma memória de frustração que entretanto ultrapassou. Voltando uns anos atrás, o início do percurso já tinha sido marcado por dificuldades. Foi inicialmente rejeitado no Sacavanense, insistiu no ano seguinte depois de uma passagem pelo Alta de Lisboa, e chegou mesmo ao emblema de Sacavém, onde passou quatro anos antes de ser recrutado pelo Sporting.
Pelo meio, uma recusa que custou muito a engolir para o internacional português, quando voltou a receber um ‘não’, desta feita do Benfica. “Estive à experiência no Benfica e fui rejeitado. Foi algo que mexeu muito comigo, já é difícil sermos rejeitados uma vez, duas torna-se mais difícil. Felizmente, consegui mais tarde vingar e sou muito grato por tudo o que tenho vindo a atingir na minha carreira”, relatou, no ‘Alta Definição’, em 2024.
“Estava na fase da minha vida em que achei que as coisas não fossem acontecer. Era júnior de primeiro ano, são poucos os casos que conseguem chegar a um patamar alto nessa altura não estando num dos grandes”, relembra.
Foi aí que surgiu o convite do Sporting que acabaria por mudar a sua vida: “Naquela altura, depois do jogo, quando o ‘mister’ Abel [Ferreira] vem falar comigo, mete-me a mão no ombro e me pergunta se queria ir jogar com eles em janeiro, fiquei com dois sentimentos. Virei-me para o ‘mister’ Abel e disse ‘claro que sim’… e depois era a dúvida sobre se ia realmente acontecer.”
“Porque aquilo que me aconteceu no Benfica, eu não queria que me acontecesse no Sporting outra vez, estar a passar por um desgosto”, lamenta, relembrando como se deu esta recusa por parte do clube da Luz: “Não me disseram nada. Lembro-me que fui na altura treinar ao Seixal, o treinador era o Bruno Lage, pessoa com quem tenho uma boa relação hoje em dia, lembro-me que treinei bastante bem, e não me disseram mais nada.”
“Obviamente, enquanto jovem, criei esperanças. Ver no balneário o Bernardo [Silva], o [João] Cancelo, já naquela altura, colegas com quem agora tenho a felicidade de privar na Seleção, e criar ilusões de que aquele espaço também iria ser meu”, continuou, antes de completar: “O facto de não me terem dito mais nada foi algo que mexeu muito comigo. Quando o ‘mister’ Abel’ me convidou para ir jogar para o Sporting, havia sempre aquela dúvida, porque faltavam três ou quatro meses para janeiro, porque o mercado não estava aberto.”
Esta mudança teve como obreiro também uma cara conhecida, Aurélio Pereira, o olheiro que descobriu enormes talentos do futebol português, como Cristiano Ronaldo, e que faleceu em 2025.
“Houve um senhor que teve um papel fundamental na minha ida para o Sporting, para além do Abel, que foi o senhor Aurélio Pereira, que se reuniu comigo e com os meus pais e foi um dos grandes impulsionadores de ter assinado pelo Sporting. Foi sempre sincero comigo, foi-me dito que não ia jogar muito no primeiro ano. A verdade é que, quando assinei pelo Sporting, fiz a sequência toda até ao final da época a jogar”, diz.
Apesar do início auspicioso, o caminho nos leões também foi marcado por incertezas, fruto dos vários empréstimos que o iam afastando da equipa principal. Aquele que acabou por ser mais decisivo, foi ao Sp. Braga, logo a seguir a um dos momentos mais negros da história recente do Sporting.
“Quando fui emprestado ao Sp. Braga, depois do ataque à Academia e tudo o que se passou, fui com a sensação de que não ia regressar mais ao Sporting. As coisas não estavam a funcionar no Sporting, estava a jogar muito pouco, na altura com o ‘mister’ Jorge Jesus, tinha 21/22 anos, precisava de jogar e aquele tempo com poucas oportunidades mexeu comigo”, sublinhou, ele que chegou a ser criticado publicamente pelo atual selecionador nacional, após um clássico contra o FC Porto.
“Quando fui para Braga, tive esse tempo que me fez crescer como jogador e foi aí que me voltou a dar o prazer e a felicidade. Isso fez de mim ser o jogador que sou hoje”, atira, de sorriso no rosto. Na cidade minhota, encontrou Ruben Amorim, que acabaria por ser o treinador que o segurou no Sporting, após a mudança para Alvalade, tendo sido peça-chave da conquista do campeonato em 2021.
Questionado por Daniel Oliveira sobre o ataque à Academia, Palhinha lembra os sentimentos negativos provocados por aquela incursão de meliantes no centro de estágio do Sporting, que redundou em agressões aos elementos do plantel leonino: “É um dia que nos marcou a todos, temi um bocadinho [pela integridade], apesar de ninguém me ter feito nada. Foi um episódio que mexeu muito comigo. Lembro-me de ter ligado ao meu pai a chorar a dizer que não queria voltar mais ali. Mais a frio, não o fiz, pelo respeito que tinha pelo clube.”
Por fim, declarou: “Felizmente, já passou e o clube se conseguiu reerguer. É com muita felicidade e orgulho que olho para o Sporting e vejo o clube completamente diferente do que foi no passado.”
Agora, estará do outro lado da “barricada” na Segunda Circular e é uma aposta para o projeto de Marco Silva, treinador sob o qual viveu o seu melhor período além-fronteiras, no Fulham, e com quem até coincidiu no Sporting, em 2014-15, ainda que, na altura, os seus minutos ainda se cingiam apenas à equipa B.
Em maio, já havia indiciado que um regresso a Portugal estava entre as suas cogitações, indicando a família como o dínamo para esse desiderato: “Não sei o dia de amanhã, mas quero voltar e hei de voltar. Só eu sei o que me custa pela vida familiar.”








