Às 13h00 desta terça-feira arrancará a última missão de Roberto Martínez ao serviço de Portugal. A abrir os telejornais da tarde, o selecionador divulgará a lista de 26 convocados para o Campeonato do Mundo e não está no programa nenhum nome capaz de engordar as manchetes.
O catalão nunca foi homem de cozinhar surpresas estonteantes e a tripulação que vai fazer dois jogos em Houston e o terceiro em Miami deverá ser uma réplica da lista que há muito se revelou perto de imutável.
Na verdade, esse foi o cartão de apresentação de Martínez. Desde cedo foi notório que gostava de apostar quase sempre nos mesmos e levou imenso tempo até reconhecer que valia a pena chamar atletas sem passado de relevo na seleção apesar de provas dadas e títulos importantes conquistados nos clubes.
Os sportinguistas Francisco Trincão e Pedro Gonçalves demoraram a merecer a confiança nos estágios na Cidade do Futebol mas agora seria estranho que não contribuíssem para fazer dos vice-campeões nacionais um dos emblemas mais nomeados na convocatória.
Com Rui Silva e Gonçalo Inácio garantidos no plano defensivo, somente o poderosíssimo PSG rivalizará com os leões no que diz respeito à representatividade, uma vez que Nuno Mendes, João Neves, Vitinha e Gonçalo Ramos são peças indiscutíveis.
Sobretudo… os três primeiros. E é a partir daqui que se percebe o problema para Cristiano Ronaldo e, por arrastamento, para toda a equipa. Têm sido raras as vezes em que o capitão beneficia da presença de um segundo avançado (Ramos), de alguém vocacionado para pressionar a retaguarda do adversário e de em simultâneo oferecer um índice de concretização compatível com a qualidade da organização ofensiva.
O facto de Martínez experimentar diversos desenhos táticos não tem proporcionado um conforto por aí além a Cristiano, demasiado exposto aos centrais que do outro lado da barricada o elegem como ameaça principal, o que só faz adensar a marcação invariavelmente cerrada de que é alvo o ponta de lança de referência.
Este aspeto, aliado à circunstância de o próprio Nuno Mendes ser o protagonista dos desequilíbrios em zona interior, abandonando as funções tradicionais de lateral-esquerdo, força o ala (João Félix) do mesmo corredor a mostrar-se vigilante nas compensações defensivas, mais uma vez com custos para os movimentos de apoio a CR7.
Nos desafios em que o talento de Neves, Bruno Fernandes e Vitinha (sem esquecer a excelência técnico-tática emprestada por Bernardo Silva) se impõe com facilidade, estas lacunas passam despercebidas.
Ou seja, enquanto decorrerem os compromissos iniciais nos Estados Unidos, é suposto Portugal usufruir de margem para se divertir e encantar, esbatendo-se essa vantagem à medida que for progredindo no torneio.
Um verdadeiro candidato ao título tem de mostrar múltiplos recursos e não ficar dependente do futebolista mais consagrado da sua história. Se nos anos vertiginosos de Ronaldo tudo e mais alguma coisa era permitido, e nas asas do camisola 7 voavam todos os sonhos, hoje em dia a regra passa por aproveitar o capitão e não aproveitar-se dele.
No fundo, esse é o maior legado que Roberto Martínez pode deixar a dois meses do final do contrato porque o futuro foi ontem e Cristiano não vai continuar a jogar por mais 20 anos.
Consciente desde a final da Liga das Nações de que nenhum triunfo vai mantê-lo no cargo depois do Campeonato do Mundo, o técnico que sucedeu a Fernando Santos parte para a América como José Mourinho partiu para os dois derradeiros meses à frente do Benfica, ou seja, em estreita articulação com Jorge Mendes na busca por uma nova aventura profissional.
E se por acaso a Direção da FPF fizesse como a de Rui Costa e apresentasse fora de prazo uma proposta de renovação, tal como aconteceu na Luz, isso apenas serviria para entregar o ónus da responsabilidade (pelo fim de ciclo) ao treinador.








