Participou ativamente nas buscas na Nazaré?
Eu cheguei a ir à Nazaré, mas como também lhe disse, na minha intuição e sentimento, desde dia 31 de dezembro que soube que algo de grave tinha acontecido, não sei se por racionalidade ou por que razão, para mim nunca foi opção que ele estivesse escondido em algum lugar, portanto andar à procura dele pelas ruas nunca me pareceu uma opção muito viável. Para além disto estava numa fase super frágil e decidi ficar mais resguardada junto dos meus, sempre mantendo contacto com os amigos que estavam na Nazaré.
Namoravam há quanto tempo?
Conhecemo-nos em julho, fomos mantendo contacto mas nunca aconteceu nada e as coisas começaram a desenrolar-se em setembro. Fazíamos a nossa vida basicamente juntos, não morávamos juntos, mas ou ele estava em Lisboa, onde eu vivo, ou eu estava na Nazaré com ele quando eu podia. Estávamos muito tempo juntos e, embora fosse cedo, tínhamos planos para o futuro, como viver juntos, embora sem datas marcadas.
Ele concedeu-nos uma entrevista dias antes de desaparecer, onde assumia que namorava consigo e que estaria na melhor fase da sua vida. Como justifica este desfecho?
Volto a dizer, acho que foi um momento acima de tudo de impulsividade, em que veio tudo ao de cima, acho mesmo que não foi uma coisa pensada que ele quisesse fazer. Acho que ele tinha muito amor à vida, muitos planos pela frente, acho que foi só um momento em que veio tudo ao de cima e acabou por cometer a pior decisão da vida dele e se calhar quando se apercebeu já foi tarde demais.
A Raquel quis ver o corpo?
Quando ele apareceu, eu estava na Nazaré com o melhor amigo dele. A melhor amiga dele acompanhou-me à Nazaré nesse dia. Estávamos os três, com a namorada do melhor amigo dele, quando recebemos uma chamada a dizer que apareceu um corpo. (pausa) Eu e o melhor amigo dele fomos reconhecer o corpo, ainda no Porto de Pescas, no I.S.N. O Marcelo foi à posteriori e deve ter tido muito mais contacto com o corpo depois, tendo em conta que foi ele que organizou a cerimónia.
Como descreve esse momento?
Não sei, honestamente, nem sei bem explicar o que se sente. Sei que me caiu tudo, sei que num dia está tudo bem, vamos passar a passagem de ano e estamos bem e uma semana depois, vejo-me numa situação que tenho de reconhecer o corpo da pessoa com quem eu imaginava estar e um futuro. (pausa) É horrível, não tenho palavras para descrever sequer.
Como se esquece essa imagem?
Tento substituir. Não nos deixaram ver grande coisa pelo estado do corpo, vimos partes, eu própria também não queria ver nada que me pudesse estragar a imagem que eu tenho dele. Vimos só o necessário para confirmar, as tatuagens e o anel. Taparam tudo o resto, cara… Tento relembrá-lo pelas boas memórias que tenho.
Foi a Raquel que deu a notícia à mãe?
Não. Foi sempre o melhor amigo do Maycon.
E como foi lidar com o funeral e o mediatismo à sua volta?
O funeral volta a ser um ‘cair da ficha’, porque apesar disto tudo, acabo por passar os meus dias, não em negação porque já aceitei o que aconteceu, mas é estranho. É estranho o que aconteceu, acho que inconscientemente acabo por entrar como se fosse dissociado da realidade. Nestes momentos de reconhecimento do corpo e do funeral cai novamente a ficha e volta aquele sentimento e angústia horrível. O funeral foi super pesado, especialmente com o mediatismo à volta. Tentámos partilhar uma hora que não era a que nós íamos, mas ainda assim foi uma coisa super pública. No momento de despedida, sabemos que temos pessoas a olhar para nós numa tentativa de julgamento, acaba por nunca ser íntimo. De qualquer forma tentei dissociar-me de tudo, não olhei para ninguém, não vi ninguém, senti o que tinha a sentir, despedi-me da forma como achei que tinha de fazer e é isso que me importa.
Renata Reis, a ex-namorada de Maycon, esteve desde o início da Nazaré. Como viu esta atitude por parte dela? Há quem diga que ela sim, parecia a namorada de Maycon.
Não devemos julgar ninguém pela forma como se faz o luto. Compreendo e aceito que eles foram parte da vida um do outro, há algum tempo, compreendo como é lógico que ela esteja a sofrer, é uma pessoa de quem ela gostou, e ele gostou dela, é óbvio que ela está a sofrer, agora a maneira como cada um expõe e partilha o sofrimento já vai na consciência de cada um e eu não sou ninguém para julgar. Eu não sou ninguém para julgar.
O facto de ela ter estado tão presente na Nazaré e nas “buscas”, pode ter contribuído de alguma forma, para as críticas endereçadas a si?
As pessoas têm formas diferentes de agir, lá porque eu não partilho nas redes sociais tudo o que estou a fazer, não significa que não tenha estado a acompanhar de perto e a ajudar em tudo o que podia desde o início. Não a culpo por nada, aquilo que eu compreendo é que de facto há uma quantidade enorme de pessoas que seguem um reality show, que ficam vidradas nisso, e numa história de reality show que já não existe na vida real há muito tempo. Essas pessoas não conseguem dissociar o reality show da vida real e vão sempre acreditar na narrativa que para eles faz sentido, mesmo que não seja a verdadeira. Mas eu também não estou aqui para tentar destruir narrativas, eu sei a verdade, o Maycon sabe a verdade, as pessoas próximas também e é isso que me interessa.
Voltou ao trabalho há pouco tempo, esteve de baixa. Tem tido ajuda profissional para ultrapassar este momento?
Sim, estou a ser seguida por um psicólogo, seria incapaz de ultrapassar isto sem essa ajuda. Estive de baixa porque estava incapaz de trabalhar nas condições em que estava, mas entretanto é preciso voltar à vida e tentar seguir de alguma maneira. Tem de ser, mas é muito duro voltar à rotina.
Ficou com objetos dele?
Para já, decidi manter as coisas dele comigo, guardadas, faz-me sentido e faz-me sentir bem neste momento. Relativamente ao futuro logo saberei como lidar. São roupas e objetos pessoais. A única coisa que mantenho sempre comigo é a tatuagem que fiz, que me faz sentir que o trago sempre comigo.










