Ainda na ressaca da primeira volta das eleições presidenciais, houve partidos que desafiaram esta quarta-feira, no Parlamento, o primeiro-ministro a tomar uma posição entre o que classificam como “um democrata” e alguém que quer “acabar com o regime”. Mas o PS não foi um dos partidos que pediram essa clarificação: remeteu-se ao silêncio e preferiu falar sobre as mortes em excesso em Portugal.
Luís Montenegro esclareceu esta quarta-feira que, por liderar um Governo de “centro”, não apoia nem André Ventura nem António José Seguro – porque estes candidatos “representam o espaço político da direita e o espaço da esquerda”. Neste cenário, o primeiro-ministro prefere “conviver com as consequências de não ter evitado a dispersão de votos no seu espaço político”.
O tema marcou o debate quinzenal no Parlamento, tendo sido levantado logo na primeira intervenção do deputado Pedro Pinto, do Chega, que começou por dizer que a escolha dos portugueses no dia 8 de fevereiro “será fácil” – “escolher entre quem quer o socialismo e escolher quem não quer o socialismo”. Neste cenário, o deputado confrontou o primeiro-ministro: “Este é o momento de definir: vai estar ao lado do socialismo ou ao lado de quem combate o socialismo?”
Luís Montenegro, que logo na noite eleitoral tinha dito que o PSD não iria endossar nem António José Seguro nem André Ventura, fez uma análise dos resultados de domingo, apontando que “os candidatos que passaram à segunda volta são os candidatos que representam o espaço político da direita e o espaço da esquerda”.
“O que é que cabe aos partidos e ao principal partido da coligação do Governo e do espaço político central, que é maioritário nesta câmara? Cabe também acatar e, de alguma maneira, conviver, com as consequências de não ter evitado a dispersão de votos no seu espaço político.”
A resposta de Luís Montenegro não satisfez as dúvidas das restantes bancadas, da esquerda à direita. “Não vejo bem onde é que está a dúvida”, observou Inês de Sousa Real, sugerindo ao primeiro-ministro que retire “a capa da neutralidade” de modo a que “o ‘não é não’, que em tempos era mais definitivo, não passe agora para um ‘talvez'”.
Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal, culpou o primeiro-ministro por ter deixado que “o espaço político do centro-direita não esteja representado na segunda volta”. Recusando-se a “reeditar a campanha eleitoral”, mas num tom perentório, Luís Montenegro respondeu: “Se há alguém que encarou as eleições presidenciais sob o ponto de vista do interesse partidário, com todo o respeito, foi a senhora deputada, porque deixou de ser candidata presidencial para assumir um cargo partidário”.
À esquerda, Livre, PCP, Bloco de Esquerda e PAN insistiram nos desafios ao primeiro-ministro, argumentando que estava em jogo uma eleição entre “um democrata” e alguém que “disse abertamente que quer acabar com o regime”. Paulo Raimundo sugeriu que o não posicionamento do PSD em relação a esta segunda volta não é mais do que uma “tática” parlamentar. “Quer manter no PS a reserva para quando for necessário acenar a chantagem, o PS lhe dar a mão em questões estruturais, como fez no Orçamento do Estado deste ano. Ao mesmo tempo, quer manter a continuidade do apoio do Chega no que é decisivo para a sua própria governação”, teorizou.
Perante a insistência das bancadas, Paulo Núncio, líder parlamentar do CDS, tomou a palavra para criticar as “lições de democracia” da esquerda sobre quem deve ou não deve ser eleito. “Qualquer candidato que receba o voto popular e que ganhe eleições tem legitimidade democrática, quer seja de esquerda, quer seja de direita. O PS e a esquerda não são donos da democracia”, declarou.
“Era o que faltava que o único voto legítimo e democrático fosse o voto no candidato do PS”, insistiu.








